Je Suis le Monde

Entrei no facebook hoje, sexta feira 13, as 21h no horário de Brasília e vi uma mensagem de um amigo que apenas dizia “paz”, um comentário no mesmo post só dizia “Paris”. Desci um pouco mais no meu feed e uma imagem da torre Eiffel. De novo não, foi meu primeiro pensamento. Vi meu irmão online, e apesar de ele ter 17, quase 18 anos, tenho certeza que ele já sabe do que isso tudo se trata. Não deu outra. Ele estava assistindo o jogo da França contra a Alemanha ao vivo quando o audio do jogo captou o som da bomba, seguindo da fala do narrador: noite de trevas em Paris. Observei também a primeira reação de muitas pessoas, todas indignadas se perguntando onde a humanidade vai parar.

A segunda reação, muito mais rápida hoje do que há alguns anos atrás graças aos novos meios de comunicação, é a de preocupação e solidariedade. Cinco minutos depois que falei com meu irmão recebi a notificação do facebook que um amigo meu, parisiense, se declarou como seguro do ataque. Dez minutos depois um amigo brasileiro, que mora em Paris, fez o mesmo. Um grupo que participo, apenas de mulheres que viajam sozinhas e se ajudam estava fervendo, o primeiro post dizia apenas “todas em Paris tomem cuidado – ataque em massa”, nos comentários várias falavam sobre o status da cidade e eu pude acompanhar o que era quase uma cobertura ao vivo do que acontecia em Paris: quais zonas estavam fechadas, onde os ataques estavam acontecendo, o que estava sendo passado para os que estavam no local, mulheres oferecendo ajuda e abrigo para outras.

A terceira reação ainda não chegou, mas da para imaginar. A inconformação passa, o estado de emergência também. Com eles a preocupação e solidariedade. E aí vem o medo e a insegurança. Voltamos ao velho olho por olho, mesmo que disfarçado por palavras bonitas, que tentam amenizar a violência que é feita em nome da paz. E em meio a tantos mortos nós aceitamos.

Dos dois lado é a mesma coisa, um líder apontando o dedo para o outro lado. Dizem que “eles”, seja lá quem são, mataram seus amigos, seus colegas, sua família. Em baixo desses líderes um povo em luto. Quem já sofreu a morte de alguém próximo sabe que esse não é o momento de fazer decisões. Quando frágil, se concorda com qualquer voz firme, aquele que diz que sabe exatamente o que fazer. Quantos exemplos na história não temos disso? E acredite, quando dizem que ela se repete basta olhar ao redor para constatar que é verdade. Então porque não mudar ela um pouquinho? Se formos objetivos na hora do desespero podemos ver claramente o que deu certo e o que não deu.

Pensem nos líderes que rejeitavam a violência. Eles sofreram nas mãos dela, e o que eles conquistaram em comparação com aqueles que tentaram retaliar, foi adivinhem só, a paz. Os líderes que eu quero olhar agora são Gandhi e Mandela. Sim, eu sei que o segundo se envolveu com a luta armada no começo da sua carreira como político, mas foi quando ele deixou de usar os punhos e resolveu estender a mão aquele que deu o tapa, que ele conseguiu unir uma nação. Gandhi viu muitos serem mortos e ainda assim o seu protesto era apenas por meio da desobediência civil.

Não, não estou dizendo que o racismo na Africa do Sul acabou por completo, nem que a India está em um estado completo de paz. Mas Nelson Mandela conseguiu, sim, derrubar o apartheid. Mahatma Gandhi teve uma enorme importância para a independência da índia. Ambos instigavam o mesmo combate sem violência, uma reação pacífica e a igualdade conquistaram seus objetivos.

Seguindo esse raciocínio imagine que depois do luto pelos mortos e feridos em Paris ao invés de marchar contra qualquer um que se diga responsável por isso, o povo se levantasse para que os governos não matassem mais ninguém. Nos mantemos no estado de solidariedade, não apenas para aqueles que sofreram, mas também pelos que atacaram. Chega do olho por olho, é impossível não demonstrar a tristeza por aqueles que foram perdidos, mas podemos reagir de forma diferente a ela. A retaliação leva inocentes, esses que são pais, mães e filhos também. Enquanto houver violência, vai ter, com certeza, um rastro de inocentes, uma família que vai deixar de ter um abraço para sempre. Isso em Paris, São Paulo, Damasco, Nova Iorque, sem excessão. Albert Einstein disse “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Não somos apenas Paris, somos um mundo inteiro.

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Morando em Amsterdam e sonhando com a vida de nômade digital. Amo filmes, séries, livros, contos em volta de fogueira, letras de música. Resumindo, toda boa história. Tudo que é novo me da energia.

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