TRENDY REVIEW para Dias de Despedida

Confirmando os boatos de que o ano só começa depois do carnaval, a coluna deu aquela atrasadinha por conta desse feriado maravilhoso de glitter, fantasia e festança.

Mas agora vamos ao trabalho, para o mês de Fevereiro eu escolhi ler o livro “Dias de Despedida” do Jeff Zentner – que pra dar aquela ~variada~, eu recebi do Turista Literário (pra quem não conhece, clica aqui). Como a coluna do mês passado atrasou e Março estará mais tranquilo, já fica a promessa que teremos a 3ª coluna ainda esse mês. 🙂

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Não consegui encontrar muita informação sobre o autor, ele é aparentemente novo no ramo da escrita, tendo esse livro e mais um lançados até agora. O outro livro é o “The Serpent King” e não tem tradução no Brasil ainda e para saber mais da história dele tem um resuminho no Goodreads (só clicar aqui). Jeff Zentner é músico e se inspirou para escrever para jovens adultos após trabalhar em acampamentos de rock nos EUA, duas curiosidades sobre o autor é que ele já morou no Brasil e fala português fluente.

“Dias de Despedida” fala principalmente sobre luto, então é uma história de essência triste, mas resgata muitos valores como amor, família, educação, vocação, saúde mental (tô adorando ver isso em tudo!) e sobre amizade. Daquelas amizades que te acolhem, abraçam, complementam e fazem feliz e cheio de memórias e histórias deliciosas. Se você tem alguém assim, te convido a ler essa resenha/reflexão e começar a aplicar desde já a falta de vergonha em demonstrar sentimentos, pois a vida está aqui, o tempo está passando e as coisas só vão acontecer agora se você se permitir.

“O universo e o destino são cruéis e aleatórios. As coisas acontecem por inúmeros motivos. Acontecem sem motivo nenhum. Carregar nas costas o fardo dos caprichos do universo é demais para qualquer pessoa. E não é justo com você.”

Na capa do livro temos alguns comentários de outros autores e uma palavra não parou de aparecer na minha cabeça após ler toda a história: HONESTO. O livro tem uma escrita simples e gostosa de ler, o enredo é super bem amarradinho e te prende com carinho. Não é aquele livro que te deixa desesperado a engolir os capítulos, mas é um livro que te embala e permite viver com os personagens.

Eu não sei se estou crescendo pessoalmente e/ou mentalmente e criando um vínculo gigante de empatia pelo sentimento das pessoas ou se os autores são realmente ótimos e têm exercido esse poder sobre mim. Estou quase indo ler um “Harry Potter” de novo e ver se eu me mato de chorar quando alguém morre ou tem uma crise de ansiedade como aconteceu nesses dois últimos livros, haha. Enfim, sem mais delongas vamos ao post…

FICHA DIAS DE DESPEDIDA

“A morte rouba tudo menos nossas histórias.” – Jim Harrison

O livro já começa bem triste com os velórios dos 3 melhores amigos do Carver (apelidado de Blade). Ele com Eli, Blake e Mars se intitulavam a “Trupe do Molho” desde que se reuniram na AAN (Academia de Artes de Nashville) para cursar o high school e se preparar para entrar na faculdade.

“Na maioria das vezes, a gente não guarda uma pessoa no coração porque elas nos salvaram de um afogamento ou nos tiraram de um casa em chamas. Quase sempre, nós as guardamos no coração porque, em um milhão de formas serenas e perfeitas, elas nos salvaram da solidão.”

Os 4 formavam aquele grupo de melhores amigos inseparáveis que todo adolescente cria dos 13 anos em diante. Tinham suas piadas internas, invenções de brincadeiras diferentes, discussões sérias e compartilhavam momentos e segredos entre eles. Era o grupo perfeito, até o dia 1º de Agosto, quando Mars bate o carro na traseira de um caminhão respondendo a um SMS de Carver, com Eli e Blake de passageiros . Fatalmente, os 3 meninos morrem no acidente deixando para trás um único integrante da Trupe, que após a tragédia tem que aprender a conviver com o luto, recomeçar, superar a culpa e outras adversidades que vão surgindo pelo caminho. 

“As pessoas se abrigam em clichês. A linguagem já é impotente o bastante diante da morte.”

Além de tratar de saúde mental (não, não canso de falar sobre isso mexmo), já que o personagem começa a experienciar crises de ansiedade após os velórios dos melhores amigos, os ápices estão nos reencontros de Carver com as famílias dos amigos falecidos. E cada uma delas vive o luto e a relação do garoto com a morte dos meninos de forma diferente e intensa, porém muito honesta. O nome vem exatamente dessas situações, pois além de viver os próprios dias de despedida depois das mortes inesperadas, Carver se dispõe a passar e promover dias de despedida com e para as famílias dos amigos.

O livro se desenrola nesses dias com a a volta para a escola, uma nova paixão “proibida”, sessões com um psiquiatra e aproximação com a sua própria família. A história tem uma delicadeza ímpar e não tem como não se emocionar, eu prometo.

“Não entendo por que não estou chorando. Era para eu estar chorando. Vai ver é como quando às vezes fica tão frio que nem nevar neva.”

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A partir daqui, aquele alerta de alguns spoilers e de textão.

Queria repassar um a um os integrantes da Trupe do Molho, começando pelo personagem principal do livro, Carver, e depois na ordem dos dias de despedida da história: Blake, Eli e Mars.

“Acho que a única pessoa que conhece bem alguém completamente é a própria pessoa. E, mesmo assim, nem sempre.”

Carver é o caçula de uma família com dois filhos e é muito próximo de sua irmã mais velha, Georgia. Seus pais estão viajando durante a semana do acidente e a irmã é quem o acompanha mais de perto no período da descoberta da morte e dos velórios dos 3 melhores amigos. Os irmãos tem uma relação muito legal e próxima, bem diferente da que ele tem com os pais – aparentemente, é aquela crise adolescente onde você acha que seus pais nunca entenderiam nada do que está se passando na sua vida ou cabeça (Quem nunca?).

Mas são nesses momentos difíceis que conseguimos reconhecer o apoio incondicional das pessoas que nos criam e nessa história não é diferente. Além do alívio de ter o filho vivo, os pais de Carver reforçam a aliança familiar acima de qualquer problema e pessoa. O pai de um dos amigos que morreram é um juiz renomado que incita a polícia a abrir uma investigação contra o garoto que sobreviveu. Como se não bastasse o luto, o menino agora tem que conviver com o sentimento de culpa e começa a ter crises de ansiedade se perdendo em seus pensamentos. Após a 2ª crise e insistência da irmã, ele aceita se consultar com um psiquiatra e começar a cuidar do que poderia se tornar uma depressão ou síndrome do pânico.

A única pessoa do colégio mais próxima dele agora é a ex namorada do Eli, Jesmyn. Uma personagem forte e apaixonante, que estuda para ser  pianista, e que acaba se tornando um dos pontos de apoio do menino no meio desse turbilhão.

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“Engraçado como as pessoas passam por este mundo deixando pedacinhos de suas histórias para as pessoas que conhecem carregarem.”

O encontro para o primeiro dia de despedida é com a avó do Blake, aparentemente essa era a casa mais amigável que a Trupe frequentava, mas também, quem não ama uma casa de avó, né? A ideia vem dela com o intuito de conseguir dizer adeus ao neto, compartilhar e ouvir histórias que fizessem a memória do menino o mais feliz e clara possível depois da tragédia.

Após relutar um pouco, Carver aceita e embarca em um dia de pescaria, cinema, comida confortável e muita emoção com a vovó Betsy. Ele descobre como a infância do amigo foi difícil e conturbada, já que a avó teve que tirar Blake da própria filha drogada e desleixada e dos incontáveis namorados que ela teve. Mas também divide muitas histórias engraçadas e boas do amigo, que era um comediante nato, inclusive de como a Trupe começou quando eles se conhecem e revela um segredo de Blake para a avó que ela nunca imaginou ou havia percebido antes.

“É engraçado como a memória apaga as partes chatas. E isso a torna uma boa editora de histórias.”

Com o balanço positivo do primeiro dia de despedida, Jesmyn propõe que eles façam um dia igual com os pais de Eli. A irmã gêmea dele que está viva, Adair, foi o motivo da 2ª crise de ansiedade de Carver no retorno ao colégio e não aceita participar desse dia, porém incentiva os pais sabendo que com a polícia investigando o caso do acidente, o garoto poderia se comprometer com algum tipo de confissão durante o trajeto e o pai dela não o deixaria escapar. A família de Eli é ateia e eles escolhem para o dia de despedida um passeio a uma cachoeira para dividir memórias enquanto dispensam um jarro de areia que Eli deu de presente aos pais. Além das discussões incansáveis do casal dos pais do amigo falecido, no fim do dia Carver tem que lidar com uma 3ª crise de ansiedade causada por um discurso bem cruel do pai de Eli sobre o papel dele na morte do filho e a aproximação com Jesmyn. Tudo isso desencadeia uma emoção reprimida em relação à amiga e os coloca em uma posição bem desconfortável, o que torna ainda mais difícil a superação e o luto de Carver nesses dias difíceis.

“Talvez o amor, assim como a água, retorna em algum ciclo infinito, apenas mudando de forma.”

Acontece todo o stress de uma abertura e tentativa de investigação do caso do acidente da Trupe do Molho e já é bem passado o segundo dia de despedida quando finalmente a polícia declara que a investigação não seguirá adiante com o 4º integrante do grupo de amigos e único adolescente sobrevivente.

Após essa declaração o pai de Mars, – aquele juiz legalzão que começou a ideia da investigação, sabem? -, demanda que Carver também proporcione um dia de despedida para ele. Esse capítulo é bem chocante e reflete muito bem como era a vida de Mars com o pai, que é um homem super abusivo (em termos de poder), rigoroso e enérgico. Ele faz Carver madrugar na casa dele para se exercitar até literalmente passar mal e se machucar caindo pelo parque, leva o garoto para a igreja onde performa um discurso sobre justiça divina e dos homens horrível e o obriga a limpar o quarto do seu filho, separando roupas para doação e descartando todas as artes de Mars – que era um exímio desenhista. Como se todo o sofrimento do dia não fosse suficiente, Carver tem um episódio de extrema coragem após encontrar a história em quadrinhos chamada “O Juiz” que claramente foi inspirada no pai. Ele tenta entregar as folhas para o juiz que, o joga para fora da casa enquanto o menino se oferece para dividir histórias do amigo com o objetivo de deixar memórias felizes, que o pai com certeza desconhecia. Após algumas horas, o juiz vai até a casa de Carver e pede para que ele divida um pouco do Mars que ele desconhece, mas que admite sempre ter se orgulhado apesar da rigidez. Enfim, aquela lição bizarra do “entregar flores aos vivos” e o claro arrependimento de não ter aproveitado melhor o tempo com o filho.

“Ninguém sabe como as pessoas superam as coisas. Elas só superam.”

Depois de todas essas experiências, Carver assimila algumas boas lições sobre como seguir a vida e creio que a mais importante é que ela passa e não se pode ficar parado, ou seremos atropelados e nos sentiremos culpados por um tempo. Ele começa a se doar mais para a família e se abre para recomeçar a vida do melhor jeito possível.

O livro é um verdadeiro convite para uma reflexão sobre como:

  • Somos afetados fisicamente e psicologicamente por tudo o que acontece em nossa volta
  • O luto pode nos atingir e aparecer de diversas formas
  • O modo que você trata as pessoas queridas

E no fim, é isso mesmo, a nossa única certeza da vida é a morte, mas infelizmente não temos os prazos escritos em nenhum lugar. Então que a gente abuse e use do poder de palavras de carinho e amor para o mundo, ele está precisando!

“Há vida por toda parte. Pulsando, zunindo. Uma grade roda que gira. Uma luz que se apaga aqui, outra a substitui ali. Sempre morrendo. Sempre vivendo. Sobrevivemos até não sobrevivermos mais. Todos esses fins e começos são a única coisa realmente infinita.”

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MUITO ariana, publicitária, mãe de gato, louca dos signos e dos livros.

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