We Shall Not Be Moved – Um retrato da desigualdade estrutural em forma de ópera

Todo ano a Europa é inundada de festivais durante a primavera e o verão. O habitantes do velho continente saem das suas casas aquecidas para finalmente curtir os poucos meses de sol e calor. Entre os festivais mais famosos estão o Tomorrow Land, que atrai milhares de fãs de música eletrônica e os maiores DJs. Mas em março em Amsterdam você encontra um festival de música mais underground. Conhecido como Off, o Opera Forward Festival, reune apenas obras contemporaneas desse estilo que para muitos é considerado medieval.

A minha primeira experiência no festival foi em 2016, quando eu assisti a peça “Only the sound remains”. A ópera composta pela filandesa Kaija Saariaho é uma adaptação de Noh, um tipo de performance clássica japonesa popular no século 14. A verdadeira revolução está na dança contemporânea, a introducão da técnologia a voz dos cantores e em todas as cançoes serem performadas em inglês. Além desses fatores, o ritmo de “Only the sound remains” é levado quase como uma meditação, fazendo com que a plateia se envolva com a performance em um novo nível.

Esse ano o festival foi realizado novamente em Amsterdam e trouxe outras performances do gênero criadas por artistas novos. E de novo eu fui em uma delas. Dessa vez a escolhida foi “We Shall Not Be Moved”, “nós não vamos ser movidos” em tradução literal. A ópera americana foi criada pelo artista clássico Daniel Bernard Roumain, em conjunto com o coreógrafo Bill T. Jones e o poeta Marc Bamuthi Joseph, todos afro-americanos.

Os criadores da ópera, Daniel Bernard Roumain, Bill T Jones e Marc Bamuthi Joseph

A história da peça conta cinco adolescentes que ao fecharem suas escolas por falta de orçamento municipal, são marginalizados e se escondem em uma casa assombrada por fantasmas de um incidente ocorrido em 1985, quando policiais jogaram bombas em uma casa ocupada pelo MOVE, um movimento que celebrava a igualdade racial, é importante destacar que esse incidente é verídico, e matou seis adultos e cinco crianças. Os jovens se acham inspirados por bilhetes deixados pelos fantasmas, ao mesmo tempo que são vigiados por uma policial, imigrante latina. E se eu contar mais vai ser spoiler.

A ópera é fantastica. Também é cantada em inglês, e as músicas são influenciadas por Hip Hop, Salsa e Pop. A trama trata de temas como raça, gênero – um dos adolescentes é um homem transgênero – e imigração, construindo um diálogo envolta de um sistema que se diz basear na meritocracia. Um prato cheia para o cenário politico atual, e sem nem mecionar nomes ou apontar dedos, mas tratando a situação como humana. São todas pessoas, de todos os dois (ou três, ou quatro, ou dez) lados.

Infelizmente a ópera só ficou em cartaz em Amsterdam por dois dias, e eu não consegui achar datas em outros lugares. Mas você consegue assistir algumas partes de “We Shall Not Be Moved” e comentários sobre a criação da mesma no canal da Opera Phila. Mas se alguém por aí conhece alguém que possa trazer a ópera para o Brasil, faça isso!

 

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Morando em Amsterdam e sonhando com a vida de nômade digital. Amo filmes, séries, livros, contos em volta de fogueira, letras de música. Resumindo, toda boa história. Tudo que é novo me da energia.

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