TRENDY REVIEW para Ecos

Eu já tenho que começar o post me desculpando ou vocês estão com os corações leves e felizes e não estão precisando praticar perdão ultimamente?

Venho com a cara deslavada, após descumprir a promessa de duas resenhas no mês de Março, para escrever a de Abril aos 45 minutos do 2º tempo. Mas espero que vocês entendam que a vida adulta faz a gente meio mentiroso às vezes e que além de querer fazer tudo e conquistar o mundo e zás, temos que lidar com a falta de tempo e com os boletos. Principalmente com a fonte de renda que liquida esses probleminhas com códigos de barras e, no meu caso, adiciono a pós graduação e essa aventura de morar solo que venho desbravando desde Setembro do ano passado.

ENFIM, parando com o mimimi, vamos ao que interessa. Resenha mara desse mês é de um livro que – pra variar – veio na minha caixa do Turista Literário (pra saber mais clique aqui) – e essa é a última vez que eu vou fazer esse jabá por motivos de já ter feito TRÊS VEZES! A essa altura espero que vocês estejam craques e cientes das minhas fontes literárias, hahaha.

O livro chama “Ecos” e foi publicado em 2017 no Brasil pela Darkside – essa editorona da porra que só faz livrão lindo (podem dar uma fuçada no site depois pra comer tudo com os olhos). Primeiro que não tem como olhar esse livro e não querer tocar, é pior do que aquelas placas de Museu, eu juro! Ele tem capa dura, toda trabalhada nas cores azul e laranja, a arte é linda, marca páginas de fita, páginas com cor de livro antigo e pretas e a borda delas – pasmem! – são laranjas. Aposto que rolou um brilho nos olhos pra quem curte livro físico aqui! Tirei algumas fotos dos detalhes para tentar dar esse gostinho para vocês:

A escritora é Pam Muñoz Ryan, não consegui achar tantas curiosidades sobre ela, mas acho que vale ressaltar duas coisas:

  1. Ela é uma americana com descendência mexicana – até mudou o nome depois de crescer para agregar a origem latina nas suas assinaturas.
  2. Seu maior foco é escrever livros para jovens adultos, na maioria com temática multicultural e ela já ganhou vários prêmios super reconhecidos de literatura por eles. Inclusive, esse livro da resenha ganhou 6 prêmios.

O livro tem uma pegada bem infanto juvenil mesmo, ele tem uma macro história pique contos de fadas que dita a harmonia dos outros três contos, que são mais parecidos com a vida real. Tudo muito bem amarradinho: histórias legais, personagens mais legais ainda e uma pegada obscura sensacional. O que, na minha opinião, foi o divisor de águas para o público mais infantil do livro.

Que conste nos registros que eu nunca me senti tão pessimista lendo um livro quanto me senti com esse, no final de cada capítulo dessas três histórias, eu esperei e imaginei o pior. Pois é, é dark nesse nível, mas acho que está bem relacionado com o enredo e situação dos protagonistas que representam algumas minorias dentro da época que elas se passam.

Além da abordagem multicultural da escritora usada para desenhar os traços e perfis dos personagens, ele também aborda contextos históricos bem legais, como: problemas econômico-sociais, ascensão do nazismo e II Guerra. Sendo bem honesta, eu não sou uma fã de História, do nosso país ou de nenhum outro, mas me vi muito interessada pelos livros de ficção que contextualizam ou se aprofundam em alguns marcos históricos mundiais. Isso começou quando eu li “Lobo por Lobo” do Ryan Graudin (não fiz resenha desse, então libero vocês para ler sobre ele aqui) que se passa em uma era futura e distópica na Europa e Ásia contando com uma possível vitória de Hitler na II Guerra Mundial. Distopia já é um gênero que eu amo e pra quem não sabe o que é, clique aqui pra ver uma explicação na querida Wikipedia da massa. Enfim, acho mais fácil de assimilar quando as pessoas dão esse jeito de unir conhecimento com ficção e foi uma das coisas que me fez gostar mais ainda de Ecos.

Aos trabalhos, vamos à ficha técnica…

O conto fala sobre três irmãs que tiveram seus espíritos aprisionados em uma gaita que chega nas mãos de um menino durante uma brincadeira de criança, esse é o mini conto de fadas e introdução que o livro te dá para todo o resto que está por vir. Elas só seriam libertadas se o instrumento salvasse uma vida e após o mensageiro repassá-la, a gaita viaja por mais três lugares e músicos sonhadores que estão em situações bem difíceis e peculiares, aqui tem um resuminho deles:

  1. Friedrich é um menino alemão que encontra a gaita no ano de 1933 em uma casa abandonada, durante o fervo do início do nazismo. Ele vê sua família dividida pelas direções e doutrinas que o povo alemão foi exposto naquela época com Hitler ainda como chanceler, mas com uma popularidade cada vez mais crescente.
  2. Michael e Franklin são dois irmãos que vivem em um orfanato nos EUA em 1935 após perderem a avó, que era a guardiã dos dois. Apesar de estarem no mesmo local, os dois estão separados pela diferença de idade e bolam planos para ficarem juntos independente do que aconteça. A gaita vai parar nas mãos de Michael durante a adaptação no primeiro lar adotivo para onde os meninos são levados.
  3. Ivy é uma americana-mexicana que vive com os pais nos EUA durante o ano de 1942 e enquanto seu irmão mais velho está na guerra, a família vive constantemente mudando de casa. A professora do seu colégio atual a apresenta para a música e lhe doa a gaita, o que faz ascender um sonho musical dentro da mocinha. Seus pais precisam se mudar novamente para cuidar da fazenda de uma família que se vê obrigada a se separar de seus bens em meio a guerra.

Olha que organizada ela, cheia de numerar as coisa tudo.

Pra falar a real, até existe uma quarta “mão” aí, já que a gaita vai parar com outra pessoa antes da história terminar, mas o livro não aborda taaaanto esse personagem como faz com os outros, então vou deixar ele de fora dessa parte aqui, ok?

Aos amantes da música é uma leitura obrigatória, todos os personagens têm sonhos e vocação musical super aflorados e não tem como não se envolver e sentir isso profundamente, toca com bastante carinho.

Em caso de emergência e de estar precisando de uma mensagem positiva, leia também. Se tem uma coisa que ficou na minha cabeça quando terminei foi: Nem tudo é tão ruim que não possa piorar e nem tudo está perdido a ponto de não ter chance de melhorar. Eu prometo, tudo é fase, tudo passa.

“Seu destino ainda não está selado.

Até na mais sombria noite

Uma estrela brilhará, um sino soará,

Um caminho será revelado.”

 

 

A partir daqui, alerta de spoilers e de texto relativamente grande e com aquelas reflexões e viagens de sempre.

Eu não sei se estou indo sendo muito profunda e achando críticas onde não existem, porém vou discorrer sobre tudo o que eu achar que o livro traz porque sim e é isso; atura ou surta! Vamos acompanhando pelas quatro principais partes do livro então…

  • Otto e as três irmãs

A história começa com um rei que assim que descobre que a esposa deu a luz a uma menina, pede para a parteira abandonar a criança na floresta e mente aos súditos que o bebê morreu, para evitar que o reino fosse passado ao seu irmão mais novo. Azar o dele que isso se repete por três vezes, mas a parteira ao invés de abandonar as crianças leva todas para a casa de uma bruxa prometendo que as meninas poderiam prestar serviços assim que atingissem uma idade.

Enfim, por mais que seja conto de fadas e até uma coisa “normal” da época das monarquias, essa questão de primogênito herdeiro exclusivamente masculino me dá um pouco de náuseas, espero que em vocês também. Se não, por favor, voltem para os anos 20 e vivam por lá.

Após as crianças crescerem, elas começam a entender como a vida com a bruxa era infeliz, mas se apoiam em duas alegrias: cantar e estar juntas.

O rei consegue ter o seu filho na sua quarta tentativa, que quando atinge a idade certa é coroado e fica sabendo pela parteira da existência das irmãs, após a morte de seu pai. Quando a mulher tenta buscar as irmãs para reuni-las com o irmão, a bruxa lança um feitiço em cima das meninas pela ingratidão e mágoa que sente, aprisionando o espírito das três em uma gaita. A única forma das meninas se salvarem seria se o instrumento salvasse a vida de alguém.

“Chegaram aqui por uma mensageira.

Devem partir da mesma maneira.

De forma humana não sairão.

Seus espíritos como o vento soprarão.

Salvem uma alma à beira da morte

Ou aqui definharão à sua própria sorte.”

Elas chegam até Otto, um garoto que brinca na floresta, através de um sonho, contando sua história e confiando à ele o segredo de como salvá-las. O garoto sai da floresta com a gaita que tem um som maravilhosamente peculiar pela combinação das vozes das irmãs e não consegue repassar o instrumento tão cedo, de forma que as irmãs não têm sua chance de libertação com o mensageiro. Mas após se tornar adulto e se casar, Otto começa a fabricar gaitas inspiradas no instrumento mágico e se vê obrigado a entregar o modelo original a um fabricante de gaitas que quer contratá-lo.

O legal dessa parte da história é que a autora amarra as duas histórias como um livro, tendo Otto como o personagem principal, mas mostrando o enredo da maldição das irmãs. E traça um paralelo rápido de como a vida de contos de fadas é difícil de ser lembrada na vida adulta.

  • Friedrich

Essa gaita vai parar na Alemanha em 1933, em uma casa abandonada próxima a uma fábrica de gaitas. Ela é encontrara por Friedrich, um garoto alemão que tem a família composta por seu pai, irmã e tio que é super presente, já que ele perdeu a mãe quando pequeno. Além de habilidades com instrumentos como piano, gaita e violoncelo, o maior sonho de Friedrich é se tornar maestro. Ele tem uma grande marca de nascença que cobre metade do seu rosto e vai até o pescoço, além do cabelo crespo loiro. O que já o afetava psicologicamente desde pequeno e o que era pra ser só uma diferença física, se torna uma grande dificuldade diante da ascensão do nazismo e a popularidade e ideias de Hitler sendo disseminadas. Sua irmã é simpática ao movimento hitlerista, enquanto seu pai e tio não só são totalmente contrários, como chegam a ser investigados por se relacionarem com judeus.

“Música não tem raça nem qualquer inclinação. Todos os instrumentos têm uma voz para contribuir. Música é uma linguagem universal.”

Aqui você vê uma criança cheia de sonhos grandes crescendo em meio a uma sociedade totalmente hostil e tendo que lidar com problemas de auto-estima, que não são só discriminados pela sociedade como pelo poder do estado. A família é bem conectada com música e podemos perceber o quanto ele tem no sangue a herança do pai do tio pelo gosto e talento musical.

É horrível e inteligente a lavagem cerebral feita por Hitler no povo alemão, mas gostei como o livro traz a empatia da família de Friedrich pelos povos que foram afetados com as ideias do estado tirano da época. O nazismo se disseminou entre os jovens do livro, como se fosse uma moda patriota, adolescentes crescendo e reconhecendo esse mundo como verdade, o quão triste isso pode ser, certo? 

  • Michael

A outra história começa em 1935, nos EUA, dentro de um orfanato. Os irmãos Mike e Frank que tiveram grande parte da sua criação com a avó, foram levados o local quando ela já não tinha mais condições de cuidar das crianças. Ela era professora de piano e ensinou Michael a tocá-lo, também ensinou outros valores de empatia, cumplicidade e gentileza.

“Não tínhamos muita coisa, mas sempre tivemos a ela.”

Apesar do orfanato ser o mesmo, a diretora do local é uma mulher ambiciosa que usa os órfãos mais velhos para trabalhar e ganhar dinheiro. Os meninos ouvem planos dela de se livrar dos menores para ganhar espaço e trazer crianças mais velhas, com intenção de fazer mais dinheiro.

Os irmãos que dividem a paixão pela música, já tinham em si o sentimento e desejo de não se separarem e mais do que nunca sentem a necessidade de serem adotados juntos. Quando dois homens visitam o orfanato, a diretora chama os meninos para fazer uma demonstração musical ao piano, entendendo que os visitantes queriam comprá-lo. Porém, um deles estava a serviço de uma viúva, em busca de uma criança para adoção. E apesar do objetivo ser levar apenas uma criança, de preferência uma menina, o homem se emociona com a música e união dos irmão e os leva para a casa da mulher.

“Vovó dizia que ser pobre não significava ser pobre de espírito.”

Chegando lá, eles se deparam com um lugar muito bonito, a senhora que os adotaria era rica, porém uma mulher cheia de mágoas que perdera o filho, esposo e pai recentemente e demora aceitar a adoção de outra criança, quem dirá de um menino, pior ainda de dois. Isso faz com que o processo de adaptação seja muito difícil e obriga Mike a tomar a decisão de abrir mão do conforto de um lar e ir atrás de uma carreira musical para que a mulher se sentisse compelida a acolher pelo menos Frank.

Além da história linda de união e amor entre irmãos, Michael traz uma necessidade protetora grandiosa que é linda de ver, é um irmão que faz o papel de responsável, sem ser aquele de pai provedor. Assim como na primeira história, toda a dor, dificuldade e mágoa das crianças é sentida em sua música, o que os ajudam a superar e refletir sobre tudo o que passam.

  • Ivy

Em 1942, nos EUA, a gaita vai parar com Ivy, uma garota americana-mexicana que a ganha da professora do colégio. Assim que é apresentada à música, ela vê seu mundo mudar, cria sonhos e propósitos em cima disso, que não são muito entendidos ou bem recebidos pelos pais. A família vive um clima de tensão com o filho mais velho na II Guerra, aliás, os EUA vivia um clima de tensão com tudo acontecendo.

“Ela fechou os olhos e se sentiu flutuar na noite mais escura, entre os cristais cintilantes…”

Isso fica muito claro quando o pai de Ivy recebe um convite para cuidar e uma fazenda de japoneses que está temporariamente abandonada. Seus donos estão nos campos de concentração dos EUA e o filho mais velho luta pelo exército americano.

Se fala muito sobre o sofrimento dos judeus reprimidos pela Alemanha na II Guerra, porém conseguimos ver aqui como os japoneses que moravam nos EUA foram impactados após o ataque a Pearl Harbor. Eles foram obrigados a se concentrarem em campos específicos para ficarem sob a vigilância do governo. Não é uma comparação equivalente obviamente, já que a Alemanha aniquilou milhares de pessoas, mas toda guerra tem impacto de dois lados e é importante conseguir enxergar isso na história.

A mãe de Ivy também consegue um trabalho com uma família da vizinhança, que tem uma filha da mesma idade e tinha dois filhos que também estavam na guerra, um falecido no ataque, sendo que o pai dessa família levanta muitas suspeitas contra os japoneses. As garotas ficam amigas e animadas já que supostamente frequentariam a mesma escola, acontece que nessa cidade para onde mudaram, ainda existe uma segregação e os mexicanos frequentam um colégio anexo ao dos outros americanos. Uma outra luta a ser travada no meio de toda a Guerra Mundial acontecendo. Pela primeira vez, Ivy vê seus pais lutando por ela inteiramente e considerando voltar para uma cidade onde eram realmente aceitos.

 

Imagino a dor das famílias que têm seus filhos enviados ou que se alistaram por vontade para ir para a Guerra, podemos ver as angustias das mães, pais e irmãos bem apresentadas e de várias formas nessa história. O que eu gostei foi de ver uma personagem feminina tão determinada, tão dona de si, esperançosa, corajosa e diferente no meio de tantas adversidades. Eu com esse meu feminismo, tenho uma quedinha por isso. Ivy é gentil e sonhadora, se apóia na força que o irmão lhe dava mesmo com ele ausente, já que ela tem que lidar com os pais mais preocupados do que a apoiando. Ela encontra sua vocação atendendo aos seus instintos e sonhos quase que sozinha e vê a música como mais uma arma de batalha para lutar contra o preconceito com os mexicanos, se aprimorando e vencendo todos os obstáculos entre as pessoas e ganhando o respeito de quem está a sua volta.

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Todas as histórias tem os finais de capítulos bem misteriosos e abruptos, mas se unem em Nova York no ano de 1951 e as últimas 27 páginas são uma explicação e acabamento de um carinho acalentador no coração muito bom, com a pitada de otimismo e conquista necessária. Não vou dar esse spoiler, mas fiquei revigorada com o fim do livro.

Além das lições sobre ir atrás dos sonhos, o livro traz muitos valores legais à tona relacionados com família, modo de viver, empatia com o próximo e principalmente com minorias. Tudo isso gira em torno de um universo de adoração à música que tem sua mágica, de fato.

Espero que vocês encontrem tanto conforto lendo esse livro ou esse post quanto eu encontrei e que se sintam prontos para tudo, independente das tempestades por quais estiverem passando ou aos céus escuros que precisamos enfrentar diariamente. Nós podemos e nós conseguiremos. A luta é diária e até levantar da cama tem que ser considerado uma conquista. Sigo torcendo pela humanidade como um todo, ainda existe e deve existir sempre esperança.

“Não importa quanta tristeza haja na vida, há quantidades iguais de ‘talvez as coisas melhorem em breve’.”

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MUITO ariana, publicitária, mãe de gato, louca dos signos e dos livros.

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